A antiga eurodeputada do PS Ana Gomes espera que o novo Presidente da República, António José Seguro, se demarque do Governo e condene a agressão dos Estados Unidos da América e Israel ao Irão, afirmando-a como ilegal.
“Há maneiras de o dizer de forma a limpar a honra de Portugal, porque é isso também que está em causa”, declarou a diplomata, no âmbito do ‘podcast’ Lusa Extra.
Ana Gomes, que foi candidata presidencial em 2021 e apoiou desde o início a candidatura de António José Seguro às presidenciais deste ano, realçou o difícil quadro internacional que o novo chefe de Estado vai enfrentar: “O mais angustiante de todos, de que eu me lembre, e tenho 72 anos”.
“Neste momento, é essencial fazer exatamente o contrário daquilo que o Governo de Luís Montenegro está a fazer – que é alinhar com o ataque ao Irão desencadeado pelos Estados Unidos e por Israel – e denunciá-lo como ilegal, contrário ao direito internacional. Isto tem de ser dito”, defendeu.
A antiga embaixadora em Jacarta referiu que esteve no Irão duas vezes e não tem “a mais pequena dúvida de que o regime do Irão é sinistro”.
“O que eu sei é que as consequências desta agressão ao Irão são de tal modo apocalípticas, quase que diria, para aquela parte do mundo, para o mundo inteiro, e para a Europa em particular, que o mínimo que se exige a qualquer governante que se respeita, que nos respeita, que nos faz respeitar, é dizer que aquela agressão é ilegal”, acrescentou.
Questionada se acredita que vai ouvir isso da parte do novo Presidente da República, Ana Gomes respondeu: “Espero bem que sim, espero bem que haja essa coragem, embora eu perceba que ele não queira, no primeiro momento, demarcar-se absolutamente do Governo, para que isso não seja interpretado como estando a tirar o tapete ao Governo”.
“Mas eu espero que, justamente, da parte do novo Presidente haja a sagacidade de dizer exatamente isto, de reiterar o direito internacional e de rejeitar agressões que são manifestamente violadoras do direito internacional, violadoras da própria Organização das Nações Unidas (ONU) e o sentido, os princípios e valores das próprias Nações Unidas, no momento em que, inclusivamente, o secretário-geral até acontece ser português [António Guterres]”, reforçou.
CORAGEM CONTRA BULLIES
Ana Gomes argumentou que “o direito internacional é o que faz a diferença entre a lei da selva, em que os grandes esmagam os pequenos, e a civilização” e o que defende os países da dimensão de Portugal, e rejeitou a sua relativização ou desvalorização, mesmo quando é “a principal potência global a espezinhar o direito internacional”.
“Há momentos em que precisamos ter princípios, valores e coragem de os afirmar contra os ‘bullies’, contra os agressores”, disse.
No seu entender, as palavras de primeiro-ministro, Luís Montenegro, no parlamento, correspondem à ideia de que, “no fundo, o direito internacional usa-se quando serve, quando não serve, a segurança está à frente”.
“Não podemos aceitar que o Governo português tenha, hoje, o mesmo tipo de posição que teve o Governo do PSD, de Durão Barroso, em 2003, face uma agressão que também era completamente ilegal, a agressão ao Iraque”, advogou.
Ana Gomes acusou depois o antigo primeiro-ministro Durão Barroso de não ter “vergonha nenhuma na cara” por vir “agora dar palpites, no fundo, na mesma linha”.






