A passagem da 7.ª etapa da 87.ª Volta a Portugal em Bicicleta pela Mata de Albergaria, no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), continua a gerar contestação por parte de organizações ambientalistas.
Juntando-se à Liga para a Proteção da Natureza (LPN), a Quercus considera que a autorização concedida pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) constitui um “grave precedente”, enquanto o presidente da Câmara Municipal de Terras de Bouro, Manuel Tibo, defende a realização da prova e rejeita as críticas de alguns setores ambientalistas.
A associação ambientalista contestou a autorização do ICNF, argumentando que a Mata de Albergaria, uma das zonas ecologicamente mais sensíveis do único parque nacional português, “não é lugar” para a realização de uma competição desta dimensão.
A Quercus reconhece que as condicionantes impostas pelo ICNF podem reduzir alguns impactos, mas considera que não resolvem a questão de fundo. Entre as medidas previstas estão a interdição do público nos setores mais sensíveis, a limitação dos veículos de apoio e a proibição de meios aéreos e de amplificação sonora.
Para os ambientalistas, porém, a presença de uma competição de dimensão nacional, acompanhada por uma extensa comitiva e por toda a logística associada, continua a representar uma pressão significativa sobre uma área de elevado valor natural.
Quercus alerta para precedente
A organização sublinha que a Mata de Albergaria integra áreas de proteção parcial de tipo I e é ladeada, em parte do percurso, por zonas de proteção total.
“A pressão automóvel e turística que a Mata de Albergaria já suporta deveria justificar medidas de redução e ordenamento do trânsito”, sustenta a Quercus, considerando que essa pressão não deve ser utilizada para justificar a realização de novos eventos de grande dimensão.
A associação ambientalista questiona ainda a compatibilidade da autorização com o Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês, lamentando que não tenha sido apresentada publicamente uma avaliação sobre a capacidade de carga da Mata de Albergaria, os efeitos cumulativos da visitação ou a eficácia das medidas previstas.
Na perspetiva da Quercus, a decisão poderá criar um precedente para a realização futura de outros eventos em áreas ambientalmente sensíveis.
As preocupações são, segundo a associação, igualmente partilhadas por membros do Conselho Estratégico do PNPG e pelo antigo diretor do parque, Henrique Miguel Pereira, nomeadamente relativamente às dúvidas sobre a legalidade da decisão e ao sinal que poderá ser transmitido à sociedade.
A Quercus admite a importância da Volta a Portugal e do ciclismo para a promoção dos territórios, mas defende que essa valorização deve ser compatível com os objetivos de conservação das áreas protegidas.
Por isso, pede ao ICNF e à organização da Volta a Portugal que revejam o percurso e retirem a Mata de Albergaria da 7.ª etapa, bem como de futuras edições da prova. Solicita ainda a divulgação da fundamentação técnica e jurídica que sustentou a autorização.
Manuel Tibo: “Os maiores guardiões do parque são os nativos e os residentes”
Do lado do município de Terras de Bouro, a posição é distinta. O presidente da Câmara, Manuel Tibo, defende que as comunidades locais desempenham um papel essencial na preservação do território e rejeita a ideia de que a passagem da prova seja incompatível com a proteção do parque.
Para Manuel Tibo, “os maiores guardiões do parque são os nativos e os residentes”, considerando que a preservação do território ao longo das gerações contribuiu precisamente para o reconhecimento e valorização ambiental do Gerês.
O presidente da Câmara esclareceu também que nunca esteve prevista a presença de público na Mata de Albergaria, explicando que os espectadores deverão concentrar-se antes da entrada na zona mais sensível do Parque Nacional.
“Nunca esteve em causa colocar público na Mata da Albergaria”, afirmou, acrescentando que o objetivo passa por garantir que a Volta seja “uma festa para todos” e uma oportunidade de promoção do território e das suas comunidades.
“Queremos um território vivo”
Manuel Tibo considera ainda que a passagem da Volta a Portugal poderá contribuir para a valorização do próprio património natural, defendendo uma visão que concilie conservação e presença humana.
“Vai ser um grande momento para Terras de Bouro e para a defesa da biodiversidade, porque não há natureza sem pessoas”, afirmou.
O autarca rejeitou, nesse sentido, uma oposição entre população local e conservação ambiental, defendendo que quem vive no território deve continuar a ter oportunidades e a beneficiar da sua valorização.
“Queremos um território vivo e com oportunidades para quem sempre viveu e protegeu o parque”, acrescentou.
Num tom conciliador, Manuel Tibo convidou ainda os críticos da realização da prova a conhecerem o concelho e a participarem nas suas tradições e festividades, deixando o desafio para que visitem o Gerês e Terras de Bouro.
O autarca garantiu, por fim, que o processo relacionado com a passagem da Volta foi preparado em articulação com as entidades competentes: “Está tudo muito bem articulado com as entidades desde o primeiro momento.”
A passagem da 7.ª etapa pela Mata de Albergaria coloca, assim, em confronto duas perspetivas sobre a utilização de áreas protegidas: de um lado, a Quercus, que alerta para os riscos ambientais e para o precedente da autorização; do outro, o Município de Terras de Bouro, que defende a compatibilização entre conservação da natureza, presença das comunidades e valorização turística e desportiva do território.






