A Europa está a mudar rapidamente a forma como pensa a sua segurança. Depois de décadas em que a Defesa parecia um tema distante, limitado a missões no exterior ou à proteção garantida pelos Estados Unidos, o Velho Continente regressa agora a uma lógica que muitos julgavam ultrapassada: preparar-se seriamente para uma guerra em solo europeu.
Alemanha, França e Polónia surgem no centro dessa transformação. Uns reforçam tropas, outros reorganizam reservas, outros procuram novas alianças. Em comum têm a mesma conclusão: o tempo da complacência terminou.
Na Alemanha, o debate tornou-se revelador da nova urgência. Berlim discute aumentar dos 65 para os 70 anos a idade máxima dos reservistas, numa tentativa de alargar a base humana disponível para defesa. A proposta surgiu num contexto de escassez de jovens recrutas e da convicção de que muitos cidadãos chegam hoje a idades mais avançadas em melhor condição física e com experiência valiosa.
A discussão seria impensável há poucos anos num país que, desde o pós-guerra, cultivou prudência militar. Mas a invasão russa da Ucrânia mudou profundamente a mentalidade alemã. O Governo pretende elevar as Forças Armadas para 260 mil militares no ativo e 200 mil reservistas até 2035. Ao mesmo tempo, voltou a colocar o serviço militar no centro do debate político.
Esse regresso não acontece sem resistência. O aumento dos pedidos de objeção de consciência mostra que a sociedade alemã continua dividida entre a memória histórica e a nova realidade estratégica.
Também França acelera. Paris trabalha na criação de uma terceira divisão militar, fortemente assente em reservistas, destinada a proteger infraestruturas críticas e a reforçar a defesa nacional caso as principais forças francesas sejam mobilizadas para o leste europeu.
O plano insere-se numa estratégia mais vasta. Desde que Emmanuel Macron chegou ao Eliseu, o orçamento militar francês duplicou. O objetivo agora é atingir 76 mil milhões de euros anuais até ao final da década. Mais do que reforçar o Exército, Macron quer posicionar França como motor de uma Europa mais autónoma em matéria de segurança.
POLÓNIA NA LINHA DA FRENTE
É neste ponto que entra a Polónia.
Num encontro em Gdansk, Macron e o primeiro-ministro Donald Tusk deram novo impulso à cooperação franco-polaca, num gesto carregado de simbolismo político. Varsóvia transformou-se num dos países mais relevantes da nova arquitetura europeia: está na linha da frente face à Rússia, investe massivamente em armamento e ganhou influência dentro da União Europeia.
“Se nós próprios não garantirmos a nossa segurança, ninguém o fará por nós”, afirmou Tusk. A frase resume bem o novo espírito que se instala em várias capitais europeias.
Os dois líderes discutiram dissuasão nuclear, satélites militares, indústria de defesa e apoio à Ucrânia. Foi também anunciado um projeto de satélite militar conjunto, pensado para reforçar comunicações seguras e reduzir dependências externas.
O que está a nascer vai além de acordos pontuais. A Europa começa a organizar-se em torno de novos centros de poder militar. A Alemanha oferece escala industrial e financeira. A França mantém capacidade nuclear e ambição política. A Polónia representa urgência estratégica e proximidade ao conflito.
Durante anos, a segurança europeia assentou na convicção de que Washington estaria sempre presente. Hoje essa certeza enfraqueceu. A imprevisibilidade política americana, somada à guerra prolongada na Ucrânia, levou os europeus a encarar uma pergunta desconfortável: e se tiverem de responder sozinhos?
É essa dúvida que está a acelerar decisões antes consideradas impossíveis. Reservistas até aos 70 anos, novas divisões militares, orçamentos recorde e alianças redesenhadas deixaram de ser exceções. Tornaram-se política de Estado.
O sinal que sai de Berlim, Paris e Varsóvia é claro. A Europa já não está apenas a reagir à guerra na Ucrânia. Está a preparar-se para um mundo em que a paz deixou de poder ser assumida como garantida.
Com Executive Digest






