É português, é conhecido por ‘Tuga’, e combate pela Ucrânia há quatro anos, desde 2022. Foi entrevistado na antena da SIC Notícias, na tarde desta terça-feira, em que se assinalam os quatro anos da Guerra na Ucrânia, e, com um passa-montanhas para não ser identificado, por razões de segurança, revelou que foi para a Ucrânia por “achar que era o mais correto a fazer”.
“O cenário da linha da frente mudou por completo desde 2022, principalmente a nível tecnológico. Não podemos dizer se é melhor ou se é pior – é diferente. Tornou-se muito mais violento e menos pessoal.
O avanço da tecnologia tem marcado bastante esta evolução da guerra e as operações em si”, começou por dizer ao ser questionado sobre as mudanças ao longo destes anos conflito.
AJUDAR
Para Tuga, a experiência que tinha de serviço militar fez com que considerasse que deveria ir para a Ucrânia “ajudar da forma como sabia melhor”. “O que mais me marcou até aos dias de hoje foi a passagem por Bucha e Batalha de Bakhmut”, confessa.
“Qualquer população acaba por ficar cansada de viver nestas condições durante um grande período de tempo. Mas isso é uma tática russa, já foi usada anteriormente, nomeadamente na Chechénia”, revela, acrescentando que sobre resiliência dos ucranianos “há dias melhores e dias piores”.
O português conta ainda, ao mesmo meio, que todas as pessoas que conheceu até hoje no país lhe repetem a mesma ideia: “Nem um centímetro de terra.” “Creio que se formos pela resiliência dos ucranianos a guerra vai demorar muito, muito, muito tempo”, sublinha.
Inquirido sobre como é que a guerra mudou, Tuga explicou que “mudou bastante e que as táticas mudaram”. “Hoje em dia é praticamente impossível fazer um assalto com um blindado.
Em vez que fazermos assaltos com um 20 ou 30 homens, hoje em dia temos de fazer em pequenos grupos de 5 ou 8 homens e a infiltração tem de ser apeada, porque hoje em dia o que comanda o campo de batalha são os drones”.
“Existem de ambos os lados, mas se antigamente, em 2022/2023 ou quando começou a haver drones, os que tinham capacidade térmica eram raros, hoje em dia são habituais”, explicou, elaborando que cabe aos soldados “adaptarem-se à situação”.
ERROS
O militar português confessou que a adaptação foi difícil e que foram cometidos “muitos erros”. “Com a experiência acabámos por perceber o que resulta e o que não resulta. Depois a experiência partilhada de brigada para brigada, de batalhão para batalhão e até mesmo de soldado para soldado é que garantiram um bocado do sucesso”, referiu.
De momento, Tuga comanda o pelotão Serpente, na brigada 53.º, composta apenas por falantes de português (portugueses e brasileiros).
O tipo de homens que chegam neste momento à Ucrânia para ajudar nos esforços de guerra, é maioritariamente sem experiência. Segundo o militar, são “30% com experiência militar e o resto vem sem”.
“No entanto, é garantido o treino básico a todos e um treino operacional continuo dentro do próprio batalhão. Isso leva com que demorem mais tempo a estar prontos para combate. Foi uma das coisas que se alterou desde 2022 até agora, a experiência dos próprios estrangeiros que vêm para cá. Mas numa guerra que dura há tanto tempo, é normal que a juventude dê lugar à experiência e a experiência tem de ser ganha no campo de batalha, que é mesmo assim”, refletiu.
MASSACRE EM BUCHA
Segundo Tuga, o pior momento que viveu foi “sem dúvida” a entrada em Bucha e deixa um alerta: “Se alguns diplomatas europeus olhassem para as pessoas que estavam estendidas no chão, algumas delas crianças, e imaginassem os seus familiares esta guerra tinha acabado porque a Europa já tinha dado o apoio que a Ucrânia necessita para acabar com esta guerra.”
“Acho que a Europa continua a olhar para o regime político russo como se fosse um regime democrático ocidental que não é, nunca foi e dificilmente será”, rematou.
Recorde-se que entre fevereiro e março de 2022, centenas de pessoas, quase todas civis, perderam a vida em Bucha, cidade ucraniana então ocupada pelas tropas russas. Foi no momento da retirada que emergiu a dramática e chocante descoberta de dezenas de valas comuns, com inúmeros corpos com claros sinais de tortura e enterrados com as mãos amarradas atrás das costas.
Foi a 24 de fevereiro de 2022 que a Rússia deu início à invasão da Ucrânia, num conflito que já soma quatro anos, e sem sinais de que o fim possa estar à vista.
Foto International Legionnaires | Ukraine






