O jornal Opinião Pública, de Vila Nova de Famalicão, anunciou esta quarta-feira a suspensão da publicação em papel por tempo indeterminado, por considerar que o novo formato do boletim municipal é “uma concorrência impossível de bater”.
Em declarações à Lusa, o administrador do grupo Editave Multimedia, que detém aquele jornal, disse que se trata de um boletim municipal “travestido de jornal” e “uma cópia perfeita de um jornal a sério”.
“E isso é perigoso, porque confunde quem lê e asfixia os jornais como o nosso, que apenas vive à custa dos seus anunciantes”, sublinhou Arcindo Guimarães.
Em causa o lançamento, este mês, pela Câmara de Vila Nova de Famalicão, do “efe”, que resulta da reformulação do boletim municipal.
“Para além das alterações ao nível da designação, do design e do formato, o renovado boletim municipal de Famalicão apresenta também mudanças ao nível do conteúdo: deixa de ser uma publicação centrada na atividade autárquica, para ser também um instrumento de valorização do território e dos seus protagonistas”, refere o município.
A Associação Portuguesa dos Media Digitais Online (APMEDIO) já enviou uma comunicação à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), considerando que o lançamento do “efe” se assume como “um agravamento de práticas de comunicação institucional por parte de autarquias locais que poderão estar a ultrapassar o enquadramento legal aplicável e a afetar o funcionamento da imprensa regional independente”.
Para a APMEDIO, a publicação de Famalicão exibe “uma linha gráfica, editorial e informativa típica de um jornal generalista, ultrapassando o âmbito da informação administrativa e institucional que deve enquadrar a comunicação das autarquias”.
A associação sublinha que estes projetos representam uma “ocupação indevida do espaço mediático local”, uma vez que são financiados com recursos públicos, mas escapam às obrigações legais, económicas e deontológicas impostas aos verdadeiros órgãos de comunicação social.
Hoje, o Opinião Pública anunciou a suspensão, ao fim de 36 anos, da publicação em papel.
O administrador diz que o “efe” está “a tomar a dianteira da linha que separa o jornalismo da informação institucional”.
“Faz publirreportagens, promove restaurantes e alojamentos, usa terminologia jornalística, tem até ‘primeiras mãos’, passa a ser um autêntico órgão de comunicação social igual aos outros, só que à conta do dinheiro dos contribuintes, fazendo uma concorrência desleal e asfixiando os verdadeiros jornais. Se alguém consegue ter publicidade de borla no jornal da câmara, obviamente já não precisa de recorrer a nós”, referiu Arcindo Guimarães.
Acrescentou que o “efe” tem duas rubricas com nomes “usurpados” de outros órgãos de comunicação social do grupo Editave Multimedia, designadamente “de lés a lés” e “à conversa com”.
“No total, na primeira edição foram publicados 61.750 jornais para distribuição gratuita pela população, mais 10 mil jornais do que o número de habitações existentes no concelho de Famalicão. Uma distribuição feita pelos CTT e paga pelo dinheiro de todos nós. Como podem os outros jornais competir com isto?”, questionou.
O município já disse que o “efe” é uma publicação institucional e “não é, nem pretende ser, um produto concorrencial da imprensa local e regional”.
Acrescentou que, com esta nova publicação, de periodicidade bimestral, reforça o compromisso de informar, envolver e valorizar a comunidade.
A publicação já foi criticada por toda a oposição, que considera que a prioridade deveria ser reforçar o apoio à imprensa local e que aconselha o executivo a usar os cerca de 100 mil euros anuais que vai gastar com o “efe” na redução de impostos.






