A guerra na Ucrânia dura há quatro anos e já levou alguns países da União Europeia a aprovar alterações importantes às suas regras de recrutamento militar: cinco países reintroduziram o serviço ou o registo obrigatório e outros admitem vir a fazê-lo. Portugal fica fora.
A Alemanha foi o último país da União Europeia a reformar o seu sistema de recrutamento militar, com um processo obrigatório de registo para homens de 18 anos (questionário e avaliação médica) e um mecanismo que pode ser ativado caso a modalidade voluntária não cubra as necessidades do país.
O serviço militar na Alemanha foi obrigatório entre 1949 e 2011, com uma duração de seis a nove meses e a possibilidade de serviço cívico em alternativa. A obrigatoriedade foi suspensa a 23 de julho; ou seja, o recrutamento continuou a ser automático, embora não fosse aplicado.
A suspensão deveu-se sobretudo à queda do número de recrutas disponíveis e à necessidade de uma Bundeswehr (as forças armadas alemãs) mais profissional e especializada. Foi em 2022, depois da invasão russa da Ucrânia, que o Governo voltou a discutir o reforço das tropas, a expansão do recrutamento voluntário, um pacote de incentivos financeiros para novos recrutas e a preparação para a reintrodução parcial do serviço militar obrigatório, ainda não formalizada legalmente.
A Alemanha tem o segundo maior exército da União Europeia, com perto de 185.000 militares ativos e cerca de 27.000 na reserva.
SERVIÇO MILITAR AMPLIADO EM FRANÇA
O maior exército pertence à França, com cerca de 205.000 militares e um orçamento de defesa nacional entre os 50 e os 55 mil milhões de euros. Apesar de não ter reposto o serviço militar obrigatório no sentido clássico, o Governo anunciou, em novembro de 2025, um novo “serviço nacional”, uma forma de serviço militar voluntário ampliado.
Com uma duração de dez meses, o serviço destina-se a jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 19 anos, mas poderá estender-se a outras faixas etárias em “circunstâncias excecionais” e mediante autorização parlamentar, anunciou então o presidente, Emmanuel Macron.
O projeto arranca este verão com cerca de 3 000 voluntários — deverá atingir os 10 000 participantes em 2030 e os 50 mil por ano em 2035. A medida decorrerá “exclusivamente em território nacional” e, segundo Macron, não implicará o envolvimento dos voluntários em conflitos no estrangeiro, nomeadamente na Ucrânia.
Ainda assim, o Presidente afirmou na altura que “a nossa juventude anseia por um envolvimento cívico” e considerou que os jovens estão prontos “para defender a pátria”. O serviço nacional será financiado por um orçamento adicional superior a dois mil milhões de euros.
A Letónia, por seu lado, foi o primeiro país da UE a reintroduzir o serviço militar obrigatório (SMO), medida justificada pelo contexto de segurança na Europa e, especialmente, pela proximidade com a Rússia. Desde 2023, homens entre 18 e 27 anos são obrigados a fazer cerca de 11 meses de serviço (existem também formas alternativas). A reforma marcou o regresso da conscrição depois de décadas sem serviço ativo obrigatório.
Com uma população que não chega a dois milhões de habitantes, a Letónia tem perto de 6.500 militares no ativo e entre 15 mil e 20 mil na reserva.
MULHRES NO SMO NA DINAMARCA
Também a Croácia aprovou a reinstauração do SMO, suspenso desde 2008, desta feita em outubro de 2025. Desde janeiro de 2026, tornou obrigatório um período de treino militar básico de cerca de dois meses. O país tem atualmente um efetivo militar que ronda os 15 mil homens (20 mil na reserva).
As alterações chegaram à Dinamarca em 2025. Desde 1 de julho do ano passado, o sistema de recrutamento passou a incluir mulheres no serviço militar obrigatório.
Tradicionalmente, o alistamento era apenas para homens (via lotaria), mas abrange agora mulheres, com participação por meio de um sorteio nacional e exames de aptidão. O período de serviço foi alargado de quatro para 11 meses.
EM PORTUGAL AUMENTA O APOIO AO SMO
Portugal não tem acompanhado as mudanças levadas a cabo noutros países europeus, especialmente nos últimos anos e num contexto de tensões crescentes, com foco nas preocupações de defesa e segurança. O debate público continua insipiente e não é incentivado por políticos, poder ou oposição, esquerda ou direita.
Apesar de um estudo recente da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social indicar um aumento do apoio dos portugueses ao regresso do serviço militar obrigatório — 47% a favor —, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, tal como o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, têm vindo a defender “um sistema de incentivos ao recrutamento”.
Portugal tinha cerca de 23.500 militares (Exército, Marinha e Força Aérea) no final de 2025, abaixo do número mínimo de 30.000 efetivos fixado no quadro estratégico das Forças Armadas para cumprir as necessidades definidas. Mas, ao contrário da opinião pública, nenhum partido defende o serviço militar obrigatório, abolido em 2004.
Com 24 Noticias






