As organizações não governamentais Animal e SOS Animal manifestaram-se esta quinta-feira indignadas com as declarações de produtores de gado sobre o fim da proteção ao lobo ibérico, manifestando-se preocupadas com o eventual incentivo à “perseguição ilegal” da espécie. A União dos Produtores de Gado Lesados pelo Lobo, de Viana do Castelo, diz que o movimento surgiu espontaneamente na sequência de um ataque, em janeiro.
“A ANIMAL e a SOS Animal Portugal apresentaram ontem [quarta-feira] uma exposição com carácter de urgência às entidades públicas competentes na sequência da criação e circulação de uma petição pública e de declarações divulgadas recentemente nos meios de comunicação social que promovem a morte de animais como resposta a conflitos associados à presença do lobo ibérico, incluindo apelos ao enfraquecimento ou eliminação do regime de protecção actualmente em vigor”, pode ler-se num comunicado enviado à Lusa.
Na quarta-feira a Lusa noticiou a criação, por produtores de gado lesados por ataques de lobos, de um movimento nacional, alargado à Galiza, para acabar com a proteção ao lobo, face à “ação selvática e implacável” nos rebanhos, que foi noticiada na quarta-feira pela Lusa.
O porta-voz da União dos Produtores de Gado Lesados pelo Lobo (UPGALL), Orlando Gonçalves, explicou que o movimento surgiu espontaneamente na sequência do ataque, em janeiro, ao rebanho de ovelhas que pastava em Santa Maria de Geraz do Lima, no concelho de Viana do Castelo.
Orlando Gonçalves classifica de “terrorismo” os ataques do lobo ao gado e defendeu que a raça “é um tumor maligno que tem de ser extraído dos espaços destinados ao ‘habitat’ dos criadores”.
PERSEGUIÇÃO ILEGAL
No comunicado desta quinta-feira as associações em defesa dos animais “manifestam particular preocupação com a linguagem utilizada no espaço público, na qual o lobo ibérico é descrito como ‘terrorismo’ e como ‘um tumor maligno que tem de ser extraído’”.
“Para a ANIMAL e a SOS Animal, este tipo de discurso ultrapassa largamente o debate legítimo sobre políticas públicas, configurando uma narrativa de desumanização que legitima a violência e incentiva comportamentos de perseguição ilegal”, consideram.
Lamentando “a morte de qualquer animal, seja em contexto de exploração pecuária ou de vida selvagem”, as associações “rejeitam é que a morte deliberada de animais seja apresentada como resposta política, instrumento de gestão de conflitos ou solução legítima para problemas complexos”.
“Os conflitos associados à presença do lobo ibérico e os prejuízos sofridos por alguns produtores são reais e devem ser tratados com seriedade, celeridade e meios adequados. No entanto, a evidência científica e a experiência internacional demonstram de forma consistente que o controlo letal não constitui uma resposta eficaz para a redução sustentada destes conflitos, podendo inclusivamente agravá-los a médio prazo”, referem.
Segundo as duas associações, “existem métodos eficazes de prevenção e de gestão ética de conflitos que não implicam a morte de animais, amplamente testados e aplicados em diversos contextos, incluindo na Península Ibérica”.
A ANIMAL e SOS Animal lembram que há “medidas de prevenção no terreno, maneio adequado dos efetivos, cães de protecção de gado, vedações eficazes, acompanhamento técnico continuado, verificação rigorosa das ocorrências e mecanismos de compensação justos e céleres”.
As associações pedem ainda “um esclarecimento público por parte das entidades competentes, a reafirmação do compromisso do Estado com políticas públicas assentes na prevenção e na gestão ética de conflitos, e a adopção de uma linguagem pública responsável que não legitime a violência sobre animais nem alimente o agravamento do conflito social”.
O lobo ibérico (‘Canis lupus signatus’) é uma espécie protegida em Portugal. A sua proteção é garantida pela Lei n.º 90/88, de 13 de agosto, que proíbe o abate ou captura do lobo em todo o território nacional, em qualquer época do ano, salvo em casos específicos.
Além disso, “a espécie é abrangida por várias legislações internacionais, incluindo a Convenção de Berna e a Convenção de Washington – CITES”.






