Uma denúncia remetida às autoridades norte-americanas, que dava conta de que “milionários americanos” viajavam até Portugal para abusar sexualmente de menores na Casa Pia, consta dos ficheiros de Jeffrey Epstein divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano (DOJ, em inglês).
Acumulam-se as referências a Portugal nos ficheiros de Jeffrey Epstein divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano (DOJ, em inglês), ainda que umas sejam mais inócuas do que outras. O nome do pedófilo surge, inclusive, numa denúncia remetida às autoridades daquele país, que dava conta de que “milionários americanos” viajavam até Portugal para abusar sexualmente de menores na Casa Pia.
A denúncia, que foi enviada na noite do dia 23 de julho de 2019, fazia menção ao terceiro episódio do documentário “O Desaparecimento de Madeleine McCann”, lançado no mesmo ano. Com “Jeffrey Epstein” no assunto, o denunciante sugeria que poderia haver uma ligação entre o predador sexual e o processo Casa Pia.
“Um documentário de 2019, atualmente em exibição na Netflix Canadá, intitulado ‘O Desaparecimento de Madeleine McCann’, é sobre a menina inglesa de quatro anos que desapareceu de Portugal, em 2007 enquanto estava de férias com os pais e irmãos. Nunca foi encontrada.
Na temporada 1, episódio 3, jornalistas portugueses referem-se a um escândalo ocorrido anos antes, relacionado com abuso infantil num orfanato português. É referido como o Pacto do Silêncio. Em relação ao orfanato, Casa Pia, uma jornalista afirma que é um facto conhecido que milionários americanos voavam para Portugal em jatos particulares com o objetivo de abusar sexualmente dessas crianças. Esta pode ser uma linha de investigação que podem querer seguir”, lê-se na comunicação publicada pelo DOJ.
‘PACTO DE SILÊNCIO’
Em causa estavam as declarações da jornalista e coautora do artigo ‘Pacto de Silêncio’, Felícia Cabrita, que apontou que “havia uma organização, já nos anos 60, [na qual] milionários americanos, que tinham aviões privados e que se deslocavam a Portugal, obviamente com a conivência de elementos de topo da Casa Pia, […] faziam com estas crianças o que bem entendiam”.
Ainda assim, importa salientar que se desconhece se as autoridades norte-americanas investigaram qualquer ligação entre Jeffrey Epstein com ambos os casos.
Sabe-se, contudo, que o avião privado do pedófilo esteve, pelo menos, quatro vezes na ilha de Santa Maria, nos Açores, entre 2002 e 2003, graças aos registos de voo. Os documentos indicam que o predador sexual fez-se acompanhar por personalidades como “Ghislaine Maxwell, Sarah Kellen, Cindy Lopez, Presidente Clinton, Doug Bands, Mike” na primeira visita.
Na segunda, além dos nomes indicados, também Kevin Spacey, Chaunte Davies, Chris Tucker e outros integraram a comitiva.
Recorde-se ainda que o avião do magnata norte-americano era conhecido como ‘Lolita Express’, numa referência ao livro ‘Lolita’, do russo-americano Vladimir Nabokov. A obra, note-se, conta a história de um professor que é obcecado sexualmente por adolescentes.
O nome do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Filipe Marques Amado também consta dos documentos, entre outras 14 personalidades estrangeiras. Luís Amado, que integrava o Governo socialista de José Sócrates, garantiu à SIC “nunca ter visto” Epstein “na vida” e classificou o caso como “ridículo”.
Numa agenda telefónica denominada ‘Black Book’ lê-se, de igual modo, “Santo, Mr. and Mrs M Espirito”, seguindo-se a morada de uma rua no Estoril.
Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado e um financeiro rico conhecido pelas suas ligações a algumas das pessoas mais influentes do mundo, incluindo Donald Trump, foi encontrado morto na cela de uma prisão federal em Nova Iorque, com um lençol atado ao pescoço, em 2019, enquanto aguardava julgamento por acusações de exploração sexual.
O DOJ tem vindo a divulgar fotografias, registos de chamadas telefónicas, depoimentos do júri e alguns documentos e registos que já eram do domínio público e que estão relacionados com o abuso sexual de jovens mulheres e menores por Epstein.






